Nos últimos anos, a odontologia tem vivido uma transformação tecnológica acelerada. Scanners intraorais, fresadoras e impressoras 3D deixaram de ser apenas inovação e passaram a ser apresentados como uma espécie de “novo padrão inevitável”. Congressos, feiras e campanhas comerciais reforçam diariamente a ideia de que o futuro da odontologia está integralmente no fluxo digital.
Mas será que a adoção dessa tecnologia acompanha, de fato, as necessidades clínicas e científicas da profissão? Ou estamos diante de uma tendência impulsionada, em grande parte, pela dinâmica de mercado?
Dados recentes do setor mostram que existe, sim, um crescimento progressivo na intenção de aquisição de scanners intraorais por cirurgiões-dentistas. Entretanto, essa expansão ainda convive com um cenário de adoção prática relativamente limitado. Levantamentos apontam que cerca de 15% dos profissionais possuem scanner intraoral, enquanto a grande maioria ainda trabalha predominantemente com técnicas convencionais.
Mesmo entre os profissionais que já utilizam o equipamento, o fluxo digital raramente substitui totalmente o analógico. Estudos indicam que as moldagens digitais representam, em média, cerca de metade das impressões realizadas na rotina clínica, evidenciando que a odontologia vive hoje um modelo híbrido e não uma transição completa.
Quando analisamos especificamente a prótese total e a prótese removível, essa realidade se torna ainda mais evidente.
Apesar dos avanços tecnológicos, ainda não existe, do ponto de vista científico e clínico, uma prótese total completamente construída em fluxo digital capaz de reproduzir com previsibilidade todos os fatores biomecânicos, funcionais e estéticos obtidos pelas técnicas analógicas tradicionais. Aspectos fundamentais como selamento periférico, dinâmica muscular, caracterização gengival individualizada e ajustes funcionais continuam dependendo, em grande parte, da sensibilidade clínica e da interação direta com os tecidos do paciente.
Isso não significa, em hipótese alguma, que a odontologia digital deva ser descartada. Pelo contrário. Ela representa um avanço extraordinário em diversas áreas, trazendo ganhos importantes em documentação, comunicação com laboratórios, planejamento e reprodutibilidade de etapas clínicas.
O ponto central talvez não seja escolher entre o digital e o analógico, mas compreender que cada tecnologia possui indicações, limitações e momentos ideais de aplicação.
Outro fator que merece reflexão é o impacto econômico dessa transformação. A incorporação do fluxo digital envolve investimentos elevados em equipamentos, softwares e treinamento profissional. Em muitos casos, isso acaba aumentando o custo final dos tratamentos e direcionando a tecnologia principalmente para reabilitações sobre implantes ou procedimentos de maior valor agregado, deixando uma parcela significativa da população sem acesso a essas soluções.
Em um país onde a necessidade por próteses removíveis ainda é extremamente relevante do ponto de vista epidemiológico e social, negligenciar o desenvolvimento e a valorização dessas técnicas pode ampliar desigualdades no acesso à reabilitação oral.
A odontologia sempre evoluiu por meio da ciência, e não pela substituição apressada de técnicas consolidadas. O fluxo digital é, sem dúvida, uma revolução importante, mas revoluções sustentáveis acontecem quando caminham ao lado da evidência científica e da realidade clínica dos pacientes.
Talvez o verdadeiro futuro da odontologia não esteja na substituição do analógico pelo digital, mas na integração inteligente entre ambos onde tecnologia e conhecimento clínico não competem, e sim se complementam.
Porque, no fim, a maior inovação da odontologia ainda deve ser aquela que melhora, de forma real e acessível, a qualidade de vida do paciente
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