A estomatite infantil não é uma patologia de causa única, mas sim a manifestação de um conjunto de fatores que podem atuar isoladamente ou em conjunto. Para o profissional da área, a diferenciação entre os tipos e suas respectivas etiologias é crucial.
Etiologia Viral: O Vírus Herpes Simplex (HSV-1) e a Estomatite Herpética Primária
A forma mais prevalente e clinicamente significativa de estomatite infantil é a estomatite herpética primária, causada pelo primeiro contato da criança com o vírus herpes simples tipo 1 (HSV-1). Essa condição é mais comum em crianças de 6 meses a 5 anos de idade, período em que os anticorpos maternos já não oferecem proteção suficiente. O vírus é altamente contagioso e a transmissão ocorre por meio de contato direto com saliva ou lesões ativas. Os sintomas são sistêmicos e orais, incluindo febre alta (acima de 38°C), mal-estar, irritabilidade, adenopatia cervical e, localmente, o surgimento de múltiplas vesículas que rapidamente se rompem, formando úlceras dolorosas. A dor intensa pode comprometer significativamente a alimentação e a hidratação, elevando o risco de desidratação.
Outra etiologia viral importante é o vírus Coxsackie, responsável pela síndrome mão-pé-boca. Neste caso, a estomatite é um dos sintomas, acompanhada por lesões vesiculares ou pápulas nos pés e nas mãos, o que auxilia no diagnóstico diferencial.
Estomatite Aftosa Recorrente (EAR): Fatores Imunológicos e Nutricionais
Diferente da estomatite herpética, a estomatite aftosa recorrente (EAR) não é causada por um vírus específico e não é contagiosa. Sua etiologia é multifatorial e frequentemente associada a disfunções do sistema imunológico. As aftas, ou úlceras aftosas, são lesões dolorosas de formato arredondado ou oval, com um centro branco-acinzentado e um halo avermelhado. A EAR é classificada em três tipos (menor, maior e herpetiforme) e sua recorrência pode estar ligada a diversos fatores de risco, como:
1. Deficiências Nutricionais: A falta de vitaminas do complexo B (principalmente B12), ácido fólico, ferro ou zinco pode predispor a ocorrência das lesões.
2. Fatores Imunológicos: Pacientes com imunidade baixa ou com certas doenças sistêmicas, como doença de Crohn, lúpus, ou distúrbios autoimunes, são mais suscetíveis.
3. Trauma Local: Pequenos traumas na mucosa oral, como mordidas acidentais, uso de escovas de dentes com cerdas duras, ou atrito com aparelhos ortodônticos, podem desencadear o aparecimento das aftas.
4. Estresse Emocional: O estresse fisiológico e psicológico está comprovadamente relacionado com o surgimento de surtos de EAR em crianças e adolescentes.
Fatores de Risco Adicionais e a Abordagem do Dentista
Além das causas virais e imunológicas, outros fatores de risco devem ser observados pelo profissional. Infecções fúngicas, como a candidíase oral (popularmente conhecida como “sapinho”), são causas comuns de estomatite, especialmente em bebês e crianças imunodeprimidas. A falta de higiene bucal, o uso prolongado de antibióticos ou a presença de fatores irritantes na dieta (alimentos muito ácidos ou salgados) podem contribuir para o surgimento de estomatites.
O papel do cirurgião-dentista transcende o diagnóstico e o tratamento sintomático. A orientação aos pais sobre medidas preventivas é um pilar fundamental. Isso inclui:
1. Educação sobre Higiene Oral: Reforçar a importância de uma higienização bucal suave e adequada, mesmo em quadros dolorosos. O uso de gaze com água filtrada ou escovas de cerdas extra-macias é recomendado.
2. Controle da Dor e Desconforto: Sugerir enxaguantes bucais sem álcool e anestésicos tópicos para alívio temporário, principalmente antes das refeições, a fim de garantir a nutrição e hidratação da criança.
3. Tratamento Sistêmico: Em casos de estomatite herpética grave, o uso de antivirais sistêmicos pode ser indicado, requerendo uma avaliação multidisciplinar em conjunto com o pediatra.
A estomatite, portanto, não é apenas uma lesão oral, mas um sinal que pode indicar condições subjacentes que demandam a atenção e o conhecimento aprofundado do profissional de odontologia. O diagnóstico correto e a intervenção precoce são essenciais para assegurar a saúde e o bem-estar dos pacientes infantis, consolidando o dentista como um pilar de cuidado integral à saúde bucal da criança.
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